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Brasileira que vive no Senegal diz que sociedade do país está chocada com violência em protestos

Por Rogerio Magno em 12/03/2021 às 05:17:39
Débora Pessoa de Melo, que vive no país desde 2014, diz que senegaleses ficaram chocados com grande número de mortes. Brasileira relata que líderes da oposição pressionam presidente para não lutar por terceiro mandato e insinuam que podem apelar para militares para forçar transição de poder: 'É uma coisa que ninguém quer e que nos assusta muito'. Brasileira moradora de Senegal explica a crise política e manifestações no país

O Senegal viveu na última semana uma onda de repressão violenta a protestos que assustou a população, acostumada a relativa estabilidade e calma. A situação se agravou nos dois dias seguintes à prisão do deputado e líder oposicionista Ousmane Sonko, acusado de estupro.

Indignados, seus defensores foram às ruas, onde foram fortemente combatidos por forças policiais e pelo exército, em ações que causaram ao menos cinco mortes, segundo números oficiais.

Esta semana, Sonko foi liberado sob condicional e a violência cessou. Mas ele promete manifestações contínuas.

A brasileira Débora Pessoa de Melo, de 39 anos, mora na capital, Dacar, desde 2014, mas diz ao G1 que amigos que estão no país há mais de 20 anos contaram nunca ter presenciado nada igual ao que aconteceu nesses dias. “Sempre percebi que aqui o povo se orgulha de sua paz. Há conflitos em países vizinhos, na região de fronteiras, mas o Senegal é muito calmo”, ressalta.

Ela se mostra especialmente chocada com as mortes nos protestos, que abalaram a sociedade senegalesa de uma forma geral.

“Essas mortes impactaram muito, é uma sociedade em que, quando um jovem morre, as famílias choram como se tivessem perdido o próprio filho. Isso é muito cultural aqui. As pessoas ainda estão muito perplexas com tudo isso”.

Débora diz que há relatos de que cerca de 15 pessoas perderam a vida, embora o governo tenha anunciado um número bem menor. E que isso é algo com que a população não está acostumada. Ela conta que a situação mais tensa que o país viveu anteriormente aconteceu em 2012, quando sua família já planejava migrar para o Senegal e adiou a viagem justamente por ser informada sobre um clima de instabilidade política. “Mas, ainda assim, quem já estava aqui diz que não há comparação”.

Segundo a brasileira, antes da prisão de Sonko já era possível notar uma insatisfação com o governo do presidente Macky Sall, cuja popularidade está em queda. “Apesar de pacíficos, os senegaleses prezam sua liberdade, e nunca houve muito problema. As pessoas falam o que pensam, se manifestam”, explica.

E existem fortes rumores de que Sall, atualmente em seu segundo mandato, teria a intenção de alterar a legislação que não permite que ele se candidate novamente, para que possa ocupar o cargo pela terceira vez a partir de 2024. Sonko, que ficou em terceiro lugar nas últimas eleições, seria seu principal adversário caso ele consiga fazer essa alteração.

Ela diz ainda que a acusação contra Sonko causou insatisfação geral. “A gente percebia que todo mudo estava achando estranha essa investigação, como esse inquérito não parecia muito bem montado, que parecia ter pontas soltas. Configurava muito como uma perseguição política mesmo. E quando ele perdeu imunidade parlamentar e foi preso, foi muito forte e repentino. Ele então aproveitou um momento diante do público e disse que pessoas deveriam ir protestar”, conta, detalhando como o movimento tomou as ruas.

Demonstração de poder

Após uma audiência na segunda-feira (8), Sonko foi liberado, mas ainda vai responder a um processo, deve se apresentar à justiça a cada 15 dias e não pode deixar o país. De qualquer forma, Débora vê sua soltura como uma demonstração do poder de mobilização do povo.

Logo após ser solto, ele deu uma entrevista coletiva, na qual acusou o presidente de traição, afirmou que ele não tem capacidade de governar e que irá denunciá-lo a um tribunal internacional por abuso de poder. Ele fez ainda uma série de reivindicações, incluindo a soltura de prisioneiros políticos e mais transparência do governo.

“Ele disse que, se todas suas exigências forem aceitas, vai aguardar a transição de poder por vias pacíficas, nas eleições previstas para 2024. Mas disse para a população escolher dois dias por semana para fazer manifestações pacíficas para pressionar o governo até que elas sejam atendidas. Então a gente deve se acostumar a ver mais protestos e ver ainda essa queda de braço por um tempo”, resume Débora.

Apenas após a fala de seu adversário o presidente Macky Sall, que não havia se manifestado desde o início dos protestos, fez um discurso. Ele condenou a violência, mas não mencionou Sonko e não citou suas reivindicações.

“Sonko já mostrou ao presidente o poder que tem, e o presidente sabe que ele não está para brincadeira, sabe que se mexer com ele vai despertar algo muito forte em toda a população. Acho que Macky Sall vai tentar ser político, costurar acordos, talvez chamar Sonko para diálogo, talvez uma planejar uma retirada pacífica do poder”, opina a brasileira.

“Chegamos numa escalada muito alta de violência e eu acredito – e espero – que a partir de agora as coisas se acalmem e que as pessoas consigam encontrar uma via de diálogo. Caso isso não aconteça, acho bem provável que o exército se associe a Sonko para fazer essa transição do poder. É uma coisa que ninguém quer e que nos assusta muito", relata.

"Isso foi aventado pelos próprios líderes da oposição, que dizem que Sonko é mais popular entre militares do que o presidente – em alguns vídeos, se vê soldados deixando a repressão e se unindo a manifestantes. Acredito que é um trunfo que Sonko tem e usa”, acrescenta.

Estrangeiros

A brasileira Débora Pessoa de Melo se mudou para Dacar, no Senegal, com o marido e dois filhos em 2014

Arquivo pessoal

Débora se mudou para o Senegal em 2014 com o marido e dois filhos. Ela trabalhava em um banco e ele tinha uma pequena empresa de informática, quando decidiram largar o que ela chama de “vida capitalista”.

Agora além de trabalhar em Dacar, onde moram, o casal também desenvolve projetos sociais. Atualmente eles ajudam a construir uma escola em uma pequena cidade, cercada por vilas, a cerca de 100 km. O filho mais velho, que terminou o ensino médio, regressou ao Brasil para cursar uma universidade.

Ela diz que não chegou a se sentir ameaçada durante os dias mais violentos dos protestos, embora tenham havido casos de estrangeiros agredidos, por ser conhecida entre seus vizinhos e não ter se afastado do bairro onde vive.

“Houve relatos de, pelo menos, dois ataques, que eu saiba: uma libanesa que mora aqui, e que foi confundida com uma francesa. E também uma família de americanos, que estava dentro de um carro e foi atacada, também por serem confundidos com franceses”.

Segundo ela, Sonko é panafricanista (corrente que propõe a união de todos os povos da África como forma de fortalecer o continente no cenário internacional) e defende, entra várias coisas, uma ruptura dos laços de dependência neocoloniais com a França. “As pessoas manifestaram toda essa raiva, toda essa insatisfação, direcionadas ao que era francês. Mais especificamente a uma rede de supermercados e uma de posto de gasolinas, as duas francesas. Não estávamos esperando que houvesse ataques a pessoas, mas houve”.

De qualquer forma, Débora e sua família evitaram circular pela cidade e pretendem continuar recolhidos até que a situação se normalize totalmente.

“Tenho uma posição muito privilegiada. Faço parte de uma equipe que tem americanos, que recebem informações com certa antecedência da embaixada dos EUA, então fomos alertados de que as coisas poderiam "esquentar" por causa das audiências e probabilidades de condenação. Então a gente se preparou, estocamos coisas", conta.

"Na sexta-feira a escola do meu filho avisou que entraria em sistema online, ele agora está estudando em casa”, diz. “Ficamos dentro de casa. Com a pandemia já não estamos saindo a toa, para a gente não foi nada tão anormal, somente outra situação que já tem feito meio que parte da nossa rotina”, admite.

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Fonte: G1

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Jota Edilson

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