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Operação no Jacarezinho foi 2ª maior chacina da história do RJ, diz ONG Fogo Cruzado

Por Everaldo Alexandre em 06/05/2021 às 17:54:11

O bairro do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro (RJ), foi palco na madrugada desta quinta-feira (6), da "segunda maior chacina da história da cidade", segundo a ONG Fogo Cruzado, laboratório de dados sobre violência armada.

Uma opera√ß√£o da Polícia Civil contra o tr√°fico de drogas deixou 25 vítimas fatais – 24 "suspeitos", segundo o Instituto de Seguran√ßa Pública (ISP), e um policial – André Leonardo de Mello Frias, que levou um tiro na cabe√ßa.

O nome das 24 vítimas n√£o foi divulgado até o fechamento desta reportagem. N√£o h√° informa√ß√Ķes adicionais sobre o óbito de nenhuma delas.

Dois passageiros de metrô e um morador foram atingidos por balas perdidas, mas sobreviveram. Dois policiais também se feriram na opera√ß√£o.

"A gente usa o termo chacina para qualquer situa√ß√£o que envolva disparos de arma de fogo com três ou mais mortes de civis, que n√£o sejam agentes de seguran√ßa em servi√ßo", afirma a porta-voz da ONG, Maria Isabel Couto.

O Jacarezinho é considerado um dos quartéis-generais da fac√ß√£o Comando Vermelho (CV) no Rio.

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"A opera√ß√£o policial no Jacarezinho é a situa√ß√£o com mais pessoas baleadas e mais mortos da história do Fogo Cruzado", afirma Couto. "Quando a gente olha o total de chacinas, só fica atr√°s da chacina da Baixada Fluminense, em 2005."

Na ocasi√£o, 29 pessoas foram assassinadas, também em uma opera√ß√£o policial contra o tr√°fico de drogas.

"Em terceiro lugar, vem a chacina de Vig√°rio Geral, em 1993, que terminou com 21 mortos", acrescenta a porta-voz da ONG, que é doutora e mestre em Sociologia.

Casas arrombadas

Membro da Comiss√£o de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Joel Luiz Costa percorreu durante a tarde desta quinta a comunidade onde ocorreu a opera√ß√£o e fez uma denúncia em sua conta no Twitter:

"Andamos pelo Jacarezinho, entramos em cinco ou seis casas, e vimos a mesma din√Ęmica: casas arrombadas, tiros, execu√ß√£o. N√£o tem marca de troca de tiros. É execu√ß√£o. Um menino morreu sentado em uma cadeira. Isso é execu√ß√£o, é cruel, é barb√°rie", relatou.

A Polícia Civil afirmou, por meio das redes sociais, apenas que lamenta a morte do policial e dos "inocentes atingidos no metrô."

Ignorando o STF

Opera√ß√Ķes como a que ocorreu no Jacarezinho desrespeitam uma decis√£o do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de junho de 2020. Na ocasi√£o, foram proibidas opera√ß√Ķes policiais em favelas do Rio de Janeiro durante o período da pandemia de covid-19, no √Ęmbito da Argui√ß√£o de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635.

Só s√£o permitidas a√ß√Ķes em casos "absolutamente excepcionais". Nesse caso, o motivo precisa ser comunicado com antecedência pela Polícia Civil ao Ministério Público. Nenhum dos dois órg√£os se manifestou até o momento sobre o que justificaria a opera√ß√£o desta quinta.

"Houve, sim, uma redu√ß√£o significativa de tiroteios, de mortes e feridos em a√ß√Ķes com a presen√ßa de agentes de seguran√ßa na regi√£o metropolitana do Rio de Janeiro", analisa Couto.

"Apesar disso, quando a gente olha o histórico de opera√ß√Ķes policiais desde que o Fogo Cruzado existe [2016], duas delas ocorreram durante a vigência da ADPF", completa.

"Isso mostra que a decis√£o do STF é importante, porque tem ajudado a poupar vidas, mas est√° sendo encarada pelas polícias como um obst√°culo para sua atua√ß√£o, e n√£o como uma oportunidade para, de fato, mudar as políticas de seguran√ßa no Rio de Janeiro."

Opera√ß√Ķes com tamanha letalidade poderiam ser evitadas com investimento em inteligência, segundo a especialista.

"A lógica por tr√°s do combate à criminalidade ainda é a do confronto, e n√£o a da investiga√ß√£o, do planejamento. S√£o casos muito graves, e têm que ser encarados pelo STF para que aquela decis√£o seja usada para reformula√ß√£o da polícia no Rio de Janeiro. O caso do Jacarezinho deixa claro que isso n√£o est√° acontecendo", finaliza.

Fonte: Brasil de Fato

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