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Problema da pandemia agora é a morte dos não vacinados

Ricardo Valentim é diretor executivo do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS) e coordenador de projetos de pesquisa nacionais e internacionais de interesse do Brasil e da Saúde Global

Por Rogério Magno em 20/11/2021 às 12:06:34

Médicos e formadores de opinião recebem em seu WhatsApp, pelo menos uma ou duas vezes por semana, um balanço da situação da pandemia do novo coronavírus enviada por um nome que é referência na evolução do vírus no Rio Grande do Norte. Ele é Ricardo Valentim, diretor executivo do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS) e coordenador de projetos de pesquisa nacionais e internacionais de interesse do Brasil e da Saúde Global.

Nada mais natural do que ouvir Valentim, que também é professor associado do Departamento de Engenharia Biomédica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Doutor, cientista e pesquisador no campo da inovação em saúde. Afinal, a partir da pandemia, o mundo sofreu drásticas intervenções nas economias mundiais, pulverizando trilhões de dólares em todo o mundo para mitigar a doença, como distanciamento social, confinamento, quarentena e lockdown.

Os primeiros casos de covid-19 no Brasil foram notificados em fevereiro de 2020 e as primeiras mortes, em março do mesmo ano. Nesta entrevista exclusiva ao Agora RN, Valentim relembra os momentos dessa luta dramática vivida pelo RN. E fala do futuro.

Agora RN – O senhor poderia nos rememorar a pandemia do novo coronavírus, desde sua chegada ao Rio Grande do Norte?

Ricardo Valentim – Antes, é preciso que se lembre do início de tudo. O novo coronavírus foi identificado na cidade de Wuhan, na China, no final de dezembro de 2019, e foi nomeado como causador da doença covid-19. Em 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o nível mais alto de alerta global de saúde previsto no Regulamento Sanitário Internacional (RSI). No Rio Grande do Norte (RN), os casos inicialmente confirmados da infecção pelo Sars-CoV-2 (covid-19) foram notificados em 12 de março de 2020 e o primeiro óbito ocorreu em 28 do mesmo mês, na cidade de Mossoró, de um paciente homem de 61 anos. Desde então, o Brasil já notificou mais de 21 milhões de casos e mais de 610 mil óbitos até o momento.

Agora RN – Qual o balanço da covid-19 entre os potiguares?

Ricardo Valentim – Até o momento desta entrevista (semana passada), o Rio Grande do Norte notificou a ocorrência de mais de 377 mil novos casos de infecção pelo Sars-CoV-2 e mais de 7.430 óbitos em função da covid-19.

Agora RN – Quando ocorreram os picos da doença entre nós?

Ricardo Valentim – No RN, a pandemia teve dois grandes picos: o primeiro foi em meados de 2020, quando havia um alto nível de restrições, de modo que somente os serviços considerados essenciais estavam abertos. O segundo e maior pico foi em maio de 2021, em virtude da presença da variante Gama. Esse segundo pico exigiu ainda mais das autoridades sanitárias do estado. Para se ter um exemplo, somente na parte assistencial do Sistema Único de Saúde (SUS), foi necessário aumentar a quantidade de leitos para covid-19, elevando de 260 leitos de UTI covid-19, em junho de 2020, para 430 leitos de UTI, em maio de 2021, o que representou um aumento de 65%, aproximadamente.

Agora RN – Quando começou a redução de contágios por aqui?

Ricardo Valentim – Depois de um forte processo de imunização da população do RN, que teve início durante o mês de janeiro de 2021, os leitos no RN começaram a ser desmobilizados em agosto último devido à forte queda dos pedidos por internações. Hoje, há somente 175 leitos de UTI covid-19, dos 430 que foram implantados. Esse processo de desmobilizar leitos covid-19 ocorre justamente porque as autoridades sanitárias do RN acreditam que a redução se dá de forma sustentada.

Agora RN – E neste momento, como o senhor definiria a situação?

Ricardo Valentim – Agora em novembro, o RN atingiu uma marca importante de imunização, chegando a ultrapassar os 70% de indivíduos adultos totalmente vacinados. Até o fim do mês, o estado deverá ultrapassar os 90% da população adulta com pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19. E os indicadores são tão bons que os novos casos diários são mais baixos pelo menos 10 vezes (180 novos casos diários) em relação ao segundo pico no mês de maio 2021 (1.800 novos casos diários). As internações são, no mínimo, cinco vezes menores e os óbitos diários são 15 vezes menores – estes dois últimos se comparados ao pico de maio.

Agora RN – Em sua opinião, o debate político-ideológico afetou o processo de vacinação no RN?

Ricardo Valentim – Nessa trajetória feita de picos e de vales, onde os contornos se deram entre os novos casos diários, as internações e os óbitos, o Brasil e o RN foram afetados não somente pela pandemia, mas também por um pandemônio. Esse fenômeno se deu no entorno de narrativas políticas e ideológicas sem qualquer respaldo científico, apesar de, muitas vezes, tentarem utilizar o selo da ciência para afirmar seus posicionamentos e até as "loucuras ideológicas". Se, de um lado, tínhamos aqueles que defendiam aguerridamente medicamentos sem eficácia comprovada, do outro lado, tínhamos os que bradavam pelo lockdown. Os medicamentos sem eficácia comprovada, de forma pragmática, não mitigaram a doença, com isso, milhares de pessoas, infelizmente, morreram no Brasil.

Agora RN – O senhor diria que os países que aderiram à forma mais rígida de controle da transmissibilidade do vírus, como o lockdown, foram bem-sucedidos?

Ricardo Valentim – Quando se comparam os indicadores e olharmos para o problema que a Alemanha e outros países mais ricos estão passando devido ao alto número de indivíduos que não querem se imunizar, vamos entender que não bastaram impor medidas não farmacológicas radicais de mitigação, como o lockdown, para resolver a grave crise global de saúde pública. A pandemia de covid-19, certamente, é um problema ainda mais difícil e complexo que afeta mais que a saúde das pessoas. Talvez, por isso, o melhor termo a ser aplicado fosse sindemia de covid-19 e não pandemia de covid-19, uma vez que estamos diante de um problema que está afetando não somente a saúde, mas também a economia e outros contextos sociais da população.

Agora RN – Estamos conseguindo imunizar o país num ritmo satisfatório?

Ricardo Valentim – O Brasil, que começou atrasado em, no mínimo, 45 dias para imunizar sua população – isso em relação a países como Estados Unidos, Reino Unido e Israel – têm conseguido, graças ao PNI (Programa Nacional de Imunização), avançar de forma estruturada na vacinação contra a covid-19. Já neste mês de novembro de 2021, o país conseguiu ultrapassar os Estados Unidos, aspecto que demonstra a potência do Sistema Único de Saúde (SUS) do nosso país. Alguns especialistas consideram a hipótese, inclusive, de que o atraso na imunização, aliado ao PNI e à variedade de imunizantes que temos hoje no país, pode ter sido um dos fatores que contribuíram para frear a variante Delta no Brasil. Quanto a isso, ainda teremos de esperar para sabermos, todavia, trata-se de uma hipótese interessante.

Agora RN – O cenário que se tem neste momento, depois de quase dois anos de pandemia de covid-19, é animador?

Ricardo Valentim – Mesmo com aumentos de casos sendo relatados em alguns países, o número de óbitos não tem acompanhado o mesmo fenômeno visto antes da imunização, quando milhões morreram. O Brasil e o Rio Grande do Norte, eu diria, seguem avançando.

Agora RN – Poderia nos detalhar esse avanço?

Ricardo Valentim – Atualmente, no estado, estamos em uma situação de controle da pandemia. Os óbitos concentram-se, particularmente, na população não vacinada. Esse é um aspecto preocupante, basta ver que, entre os dias 12 e 13 de novembro deste ano, 100% dos seis óbitos foram de pessoas não vacinadas. A morte entre pessoas não vacinadas têm aumentado, não somente no estado, mas também no Brasil e no mundo. Há países que estão ponderando sobre adotar medidas restritivas somente para os não vacinados. Por exemplo, a Áustria recentemente publicou a intenção de impor um lockdown somente para quem não se vacinou.

Agora RN – Será que vamos viver outra pandemia de covid-19? Seria uma espécie de pandemia paralela que iria afetar e matar predominantemente os não vacinados?

Ricardo Valentim – No Rio Grande Norte, há idosos que não tomaram dose alguma do imunizante contra a covid-19. Esses indivíduos estão se colocando diretamente em risco, eles são os mais vulneráveis, todavia, não somente eles ficam em risco, mas toda a sociedade pode ser impactada – o benefício da imunização não é apenas individual, ele é prioritariamente coletivo. Graças à ciência, o mundo tem a vacina como a ferramenta mais eficaz hoje para enfrentar a pandemia da covid-19. Todavia, ela não poderá ajudar aqueles que não se vacinarem. Particularmente, acredito que depois de tantas mortes e tanto sofrimento, o mundo precisa ser poupado.

Não precisamos assistir a um suicídio coletivo – a morte dos não vacinados – daqueles que não querem se vacinar. Criar essa consciência coletiva é, neste momento, algo para além da ciência. Acredito que isso está nas mãos dos bons líderes, daqueles que podem estimular e criar esperança na sociedade para que todos se vacinem. Precisamos deles neste momento, mais do que da própria ciência que já fez e ainda continuará a fazer o seu papel.

Fonte: Portal Agora RN

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Jota Edilson

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