Escolas que disputam Olimpíada de Matemática se saem melhor no Enem

Os alunos de escolas com altas taxas de participação na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) têm obtido melhores resultados no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem).

Por Rogerio Magno em 27/05/2024 às 07:37:19

Os alunos de escolas com altas taxas de participação na Olimp√≠ada Brasileira de Matem√°tica das Escolas P√ļblicas (Obmep) t√™m obtido melhores resultados no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). É o que mostra pesquisa conduzida pelo Interdisciplinaridade e Evid√™ncias no Debate Educacional (Iede), organização que se dedica a estudos em educação. Divulgado nesta segunda-feira (27), o estudo revela ainda que essas instituições também registram maiores taxas de aprovações de seus alunos e menores distorções na equival√™ncia entre idade e série.

No critério de alta participação, foram enquadradas as escolas em que pelo menos 65% dos estudantes classificados participaram da segunda fase. Nessas instituições, constatou-se que o aprendizado em matem√°tica não beneficia apenas dos estudantes que se destacam na disciplina, mas toda a turma. "A Olimp√≠ada de Matem√°tica vai ter impacto maior em todos os estudantes se ela gerar mais mobilização", observa o pesquisador e diretor executivo do Iede, Ernesto Faria.

Em um recorte no grupo de escolas que tiveram alunos conquistando pr√™mios na Obmep, mas que não registraram alta participação, chamou atenção a desigualdade interna. Nesses casos, apesar de se verificar aumento das médias no Enem, observa-se também maior discrepância entre as notas dos alunos. "Se a Olimp√≠ada de Matem√°tica não gera efeito mobilizador na escola, ela pode acabar ajudando apenas um determinado perfil de alunos. E a√≠ perde-se o potencial de contribuir com a melhoria de alunos que estariam registrando mais baixo desempenho", alerta Ernesto.

A média da nota na prova da matem√°tica do Enem, considerando todas as instituições onde houve alunos que conquistaram medalhas na Obmep, foi de 516,1. Entre aquelas que não participaram ou que não foram premiados, a média cai para 488,5.

Além disso, também foi avaliado o desempenho no Sistema de Avaliação da Educação B√°sica (Saeb), aplicado a cada dois anos pelo Ministério da Educação desde 1990. Por meio dele, são produzidos indicadores educacionais referentes às regiões, unidades da Federação, munic√≠pios e instituições de ensino. Com base nos dados levantados, são realizadas an√°lises envolvendo a qualidade, a equidade e a efici√™ncia da educação praticada nos diversos n√≠veis governamentais.

As escolas com alunos que conquistam medalhas na Obmep registraram no Saeb média de 270,3 pontos para o ensino fundamental e de 288,8 para o ensino médio. Aquelas que não participaram ou não tiveram premiados apresentaram médias de 240,2 e 269,8, respectivamente.

"A Olimp√≠ada é um programa muito importante que gerou ações de mobilização e de reconhecimento da matem√°tica nas escolas. Mas é preciso ter esse olhar de como não promover desigualdade. E a√≠ passa por avaliar o que mais a gente pode fazer. O potencial da Olimp√≠ada é enorme. Ela tem essa capacidade de chegada nas escolas e j√° tem gerado resultados. Mas poder ser ainda mais transformador", avalia Ernesto Faria.

De acordo com ele, o envolvimento na Obmep também favorece o acesso ao ensino superior. As escolas com altas taxas de participação e alunos premiados tem maiores percentuais de estudantes que alcançam média no Enem compat√≠vel com as exig√™ncias para admissão em faculdades p√ļblicas e privadas.

Criada em 2005, a Obmep é considerada atualmente importante pol√≠tica p√ļblica para promover o ensino da matem√°tica no pa√≠s. A competição é organizada pelo Instituto de Matem√°tica Pura e Aplicada (Impa), unidade de ensino e pesquisa vinculada ao Ministério da Ci√™ncia, Tecnologia e Inovação (MCTI) e ao Ministério da Educação (MEC). A 19¬™ edição, disputada neste ano, registrou dois recordes. Em 99,9% dos munic√≠pios do pa√≠s, ao menos uma escola se inscreveu. Foi a mais abrangente cobertura territorial j√° alcançada. Além disso, com 56.513 escolas envolvidas, obteve-se a maior participação desde que a competição teve in√≠cio.

O próprio Impa atuou como parceiro técnico da pesquisa, assim como o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação Superior da Universidade de São Paulo (Lepes/USP). O estudo também contou com o apoio da B3 Social, uma instituição sem fins lucrativos.

Segundo Ernesto Farias, a pesquisa é importante porque traz dados que ajudam a pensar caminhos para alterar o atual cen√°rio brasileiro. A √ļltima edição do Saeb, em 2021, registrou o menor percentual de estudantes com aprendizado adequado em matem√°tica na comparação com a l√≠ngua portuguesa.

No 5¬ļ ano da rede p√ļblica, por exemplo, a diferença foi de 14 pontos percentuais: 51% dos alunos tinham aprendizado adequado em l√≠ngua portuguesa e apenas 37% em matem√°tica. Escalando as etapas da educação b√°sica, a discrepância se acentua. No 3¬ļ ano do ensino médio, apenas 5% dos estudantes da rede p√ļblica registram aprendizado adequado em matem√°tica.

Quando considerados apenas os alunos de baixo n√≠vel socioeconômico, nas diferentes etapas da educação b√°sica, esse percentual chega a 4,4%. Os pesquisadores lembram também que, conforme os dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), os jovens brasileiros de 15 e 16 anos estão cerca de tr√™s anos atr√°s na aprendizagem em matem√°tica na comparação com aqueles da mesma idade que vivem em pa√≠ses desenvolvidos.

"O Brasil tem desafios na educação de uma forma geral, mas o desafio em matem√°tica é ainda maior. E é algo generalizado. Obviamente, as escolas que atendem jovens mais vulner√°veis sofrem mais, mas na verdade temos poucas escolas que de fato registram resultado alto em matem√°tica. Alfabetização não pode ser só saber ler e escrever. Alfabetização tem que ser também utilizar bem os n√ļmeros, saber as quatro operações. Mesmo instituições privadas de elite t√™m desafios", comenta Ernesto Faria.

Escolas P√ļblicas

O estudo também buscou identificar quantas são e onde estão as escolas p√ļblicas que mais se destacam em matem√°tica. Para mapear ações comuns que parecem contribuir para o bom desempenho dos alunos, os pesquisadores inclusive visitaram oito dessas unidades nas regiões Sudeste, Nordeste e Sul.

Ao todo, 71 das 47.418 escolas de ensino fundamental e 80 das 20.606 de ensino médio conseguem bons resultados em matem√°tica, mesmo atendendo alunos de baixo e médio n√≠vel socioeconômico. Os pesquisadores manifestam preocupação com esses dados, inclusive porque consideram que não utilizaram critérios demasiadamente rigorosos. Ainda assim, entre milhares de escolas, poucas dezenas obtiveram destaque em perspectiva nacional.

Nas visitas de campo, quatro fatores chamaram a atenção: a exist√™ncia de uma boa relação entre professor e aluno, que envolve confiança e apoio emocional; a preocupação dos professores com a aprendizagem de todos, com estratégias voltadas para aqueles que apresentam mais dificuldade; a busca por métodos e ferramentas que tornam o ensino mais atrativo; e a oferta de aulas de com conte√ļdos mais aprofundados.

"Vimos algumas pr√°ticas interessantes, alguns professores muito fora da curva, realmente de muita qualidade. Mas não tem uma estrutura nas escolas, de fato, para garantir a aprendizagem da maioria. Voc√™ tem ali uma turma com bons resultados e, do lado, na sala vizinha, tem alunos ali aprendendo matem√°tica com um n√≠vel de exig√™ncia mais baixo", afirma Ernesto Faria. Segundo ele, o bom desempenho de uma escola muitas vezes est√° mais relacionado com esses professores fora da curva do que com questões estruturais.

Para os pesquisadores, além de fortalecer a Obmep, é preciso pensar em pol√≠ticas p√ļblicas que envolvam questões como melhorias estruturais e garantia de formação continuada dos professores. Experi√™ncias de sucesso no Brasil e no exterior podem ser mapeadas para servir de exemplo e serem replicadas.

"Às vezes até h√° garantias da rede de ensino que são importantes. Dão apoio para organizar turmas preparatórias para a Obmep. Por vezes, garantem recursos financeiros extras para esse professor dar aula no fim de semana. Então, não é que o professor sozinho ir√° gerar a aprendizagem do estudante. Mas hoje não h√° uma pol√≠tica de formação que permita que a escola tenha ali cinco ou dez bons professores de matem√°tica. O que temos são casos de professores talentosos e a√≠ algumas ações da rede de ensino permitem que eles tragam resultados", acrescenta.

A pesquisa também mostra o alto percentual de professores sem formação adequada e a precarização das contratações. Muitos deles t√™m contratos tempor√°rios e trabalham em diferentes escolas, em turnos alternados. "Um desafio que existe é de formação de professores na √°rea. Inclusive, na pedagogia. A gente precisa ter bons professores de matem√°tica nos anos iniciais do ensino fundamental. Não são especialistas, mas dão aulas de matem√°tica e de l√≠ngua portuguesa e tem que conseguir trabalhar de forma positiva os conte√ļdos", observa Ernesto Faria.

Fonte: Agência Brasil

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