Festas juninas geram oportunidades de renda extra para empreendedores

Por Rogerio Magno em 16/06/2024 às 05:53:34
Com a confecção dos vestidos das quadrilheiras, Lenilda Moraes consegue se organizar financeiramente - Foto: Magnus Nascimento

Com a confecção dos vestidos das quadrilheiras, Lenilda Moraes consegue se organizar financeiramente - Foto: Magnus Nascimento

O período das celebrações juninas não traz benefícios só para os festeiros. Empreendedores de diversas áreas são demandados durante esse período e apostam alto nas oportunidades que surgem para ter os maiores lucros do ano. São costureiras, músicos e cozinheiras, que veem no São João e São Pedro uma forma de se destacar no mercado.

O músico Daniel Soares trabalha como sanfoneiro há cerca de 10 anos e, desde então, percebe que é nos meses juninos que acontece o seu maior lucro do ano. Apesar do antigo interesse pela música, foi na sanfona que encontrou a sua paixão e desde então dedica-se diariamente para aperfeiçoar suas habilidades. "Sempre tive interesse em conhecer a sanfona, então assim que pude ter o meu próprio dinheiro eu comprei a minha sanfona. Mesmo tendo apoio da minha família, o interesse pela música desde cedo surgiu de mim mesmo, e só depois que comecei a tocar a sanfona que descobri que o meu bisavô tocava uma fole de oito baixos", conta Daniel.


Para manter-se atual e capaz de agradar todos os públicos, o músico investe em manter o seu repertório eclético, ensaiando os forrós que vão desde os antigos e pés de serra até o forró eletrônico popularizado nos últimos anos. "Tenho como principais referências os músicos mais clássicos como Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Sivuca, mas sigo sempre com o repertório atualizado com músicas atuais para conseguir agradar a todos os públicos", explica.


Estimando o investimento em equipamentos de música entre R$10 mil a R$15 mil, o músico aposta no forró do tipo pé de serra para ter mais sucesso no período junino, e percebe nas redes sociais a principal ferramenta para se manter em vista no mercado. "Antigamente a concorrência era mais desafiadora, hoje em dia eu acredito que há espaço para todo mundo. Mas percebo que a principal forma de se expor o trabalho hoje em dia é através das redes, com boas estratégias de marketing digital com produções de conteúdos e interações com o público", relata.


Daniel percebe que o principal desafio para seguir tocando nas festas de São João é conseguir conciliar a rotina diária com os ensaios e shows, percebendo também a dificuldade de ser valorizado dentro do mercado. "Às vezes o mercado nivela por baixo, então é difícil fazer as pessoas enxergarem você como um produto diferente dos outros, enxergarem o seu valor pela qualidade musical e da estrutura que você investiu para oferecer aquele produto", conta o sanfoneiro.


"Como todo bom nordestino, adoro o período de junino e todas as suas características, desde as comidas típicas ao forró, e poder participar dessa festa sendo um protagonista, puxar o fole para animar as pessoas nessas festas é um grande prazer para mim", conclui Daniel.


Mantendo a tradição das comidas típicas juninas, Edilma Oliveira iniciou o seu negócio há 25 anos e nunca mais parou. Foi com os ensinos da mãe e da sogra que a empreendedora iniciou a venda dos seus produtos, e tem hoje em dia a renda do seu empreendimento como a sua maior renda do ano. Por saber da alta procura da culinária junina, Edilma inicia as suas vendas ainda no mês de abril. "Como a demanda é muito alta, eu contrato outras quatro pessoas para me ajudar a lidar com os preparos e vendas, pois a correria é muito grande", conta.


Edilma relata que durante o período vende aproximadamente 3 mil produtos por dia, dentre eles canjica, pamonha, milho cozido e assado, e bolos de sabores diversos. "Além da banca fixa em Cajupiranga, também realizamos entregas, vendas via iFood e até mesmo encomendas grandes para eventos", conta a proprietária da Gosto do Milho. Para o período, Edilma estima que tenha um investimento prévio de cerca de R$5 mil, dos quais são R$3 mil investidos em pagamentos de funcionários e R$2 mil em embalagens e utensílios para o preparo.


"Sou muito grata pela fidelidade da minha clientela, pois sempre tenho a certeza que terei as vendas para os consumidores antigos, o que garante que o movimento sempre será ótimo. Estamos em um local novo esse ano, então são novos clientes que estão conhecendo os produtos e voltando para repetir as suas compras, então as vendas se superam a cada ano", relata Edilma, que estima ter lucrado cerca de R$20 mil no ano de 2023. "Ainda bem que o movimento é sempre muito bom, então sempre há a tranquilidade de que no final o resultado do lucro seja sempre positivo", conclui a empreendedora.

"Minha vida é a costura, vivo disso o ano inteiro"

Dentro do ramo da costura, as profissionais percebem que além do São João, os períodos de maior procura são os das festividades como carnaval, natal e ano novo. A percepção é a mesma para Lenilda Moraes que, diferente de Gildete Azevedo, trabalha na confecção dos vestidos das quadrilheiras. Com 40 anos dedicados ao trabalho com costura, este ano Lenilda trabalhou na produção dos vestidos dos destaques juninos, como rainha, noiva e mocinha das quadrilhas.

"Minha vida é a costura, vivo disso o ano inteiro, então é muito bom o aumento da procura que percebo durante esse período, pois é quando consigo me organizar financeiramente para fazer alguma compra específica com o lucro que tenho nesses meses", conta a costureira, que percebe o aumento de mais de 100% na procura pelas confecções durante o período junino.


"Não tenho o custo de comprar o material, pois as quadrilhas já trazem para mim, então acaba sendo um custo a menos para o meu ateliê", relata Lenilda. A costureira costuma vender os vestidos das quadrilhas a cerca de R$600 reais, e conta que a procura vem sendo maior do que em 2023.


"Felizmente, tenho a fidelidade do meu público, que sempre me procura durante o ano todo, mas mesmo assim nem sempre durante o ano o rendimento é suficiente", percebe a costureira.


Para se manter em dia com as demandas do mercado, a costureira conta que tem o hábito de pesquisar sobre as novas tendências do momento. "Quando iniciei com as quadrilhas não existiam muitas novidades, eram sempre as vestes mais tradicionais mesmo, e depois que foram surgindo novas formas de fazer as roupas. Então sempre temos a necessidade de estar pesquisando, seja vendo na internet ou até mesmo indo perguntar para outras costureiras das quadrilhas as formas de confeccionar", relata Lenilda.


Para lidar com a alta demanda, ela costuma pedir a ajuda da filha para conseguir cumprir os prazos das suas encomendas. "Minha filha não gosta de costurar, mas preciso da ajuda dela para conseguir adiantar algumas etapas", conta. A costureira iniciou o seu trabalho por interesse próprio, apesar de ter tido a irmã como inspiração. A costureira percebeu o próprio dom e viu a oportunidade de intensificar o seu aprendizado a partir dele.
"Tenho um amigo que está iniciando na costura também, então deixo ele vir utilizar meu espaço e vou ensinando a ele", fala Lenilda, que também percebe a diminuição do número de costureiras no mercado.

Demanda de vestidos juninos tem crescido

Partindo da necessidade familiar, Gildete Azevedo foi envolvida pelo ramo da costura ainda aos 15 anos quando sua mãe lhe ensinou a costurar. "Minha família começou a costurar pela necessidade mesmo, a renda da minha mãe iniciou com a costura. Ainda jovem já fui fazendo cursos e trabalhando em confecções no interior, hoje faço desde roupas simples até a vestidos de noiva, a demanda que aparecer eu consigo cumprir", conta.


Pela prática adquirida em confecções industriais, Gildete conta que nos períodos juninos é capaz de fazer cerca de 30 a 40 vestidos de São João por dia. "Esse ano eu reduzi a quantidade de encomendas pois estou com problemas de saúde que me impedem de trabalhar por muito tempo, então estou costurando cerca de 10 vestidos por dia", relata a costureira, que vende os vestidos mais simples a cerca de R$50 reais, e mais elaborados a R$120. "Com a prática, os vestidos saem em linha de produção mesmo, já vou repetindo a mesma etapa em todos e agilizando o processo de costura", explica a costureira.


Para se preparar para a alta demanda do período, a costureira precisa comprar o material necessário meses antes, pois percebe que se deixar para comprar após iniciado o período junino ela pode não encontrar o material e a qualidade que gosta de utilizar. "Esse ano eu já comprei os aviamentos no início de maio, gastei aproximadamente R$400. Percebo que a questão da compra do material é a principal dificuldade do ramo, pois as vendas são muito centralizadas no Centro e no Alecrim, faltam variedade de lojas e armarinhos na zona Norte de Natal", relata a proprietária do Ateliê Ark"s, Cores e Linhas.


Pela antiguidade da arte, Gildete percebe que o número de costureiras vem diminuindo com o passar do tempo, o que vem aumentando a demanda para as costureiras que continuam "na ativa". "Apesar do aumento durante o período junino, felizmente a demanda é sempre alta, não tenho períodos em que o trabalho seja escasso. Mas percebo que muitas costureiras estão abandonando a prática, muitas por questões de saúde, por estarem envelhecendo", relembra.


A costureira natural de Jardim do Seridó tem mais de 30 anos de experiência no ramo, e até hoje reconhece o quão gratificante é o seu trabalho. "Não me preocupo com relação à clientela, pois sei que que tenho clientes fieis, por mais que eu mude de local, sempre sei que vão continuar me procurando. E é muito gratificante que, além de poder trabalhar com o que eu gosto, eu também tenho o reconhecimento que sei que mereço", relata.

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