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Nem a dist√Ęncia salva: Mesmo com isolamento social, n√ļmero de homic√≠dios de 2020 j√° √© maior que em 2019

Por Rogério Magno em 28/08/2020 às 10:56:17

Para algumas coisas, o isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus n√£o serviu para nada. Exemplo é a viol√™ncia. Poderia ter colaborado para a redu√ß√£o das chamadas condutas violentas letais intencionais (CVLIs)? Sim, mas n√£o ajudou. Em 2019, de 1¬ļ de janeiro a 27 de agosto, 968 pessoas foram mortas no Rio Grande do Norte. J√° este ano — considerado atípico em raz√£o da doen√ßa — 983 j√° foram vítimas da viol√™ncia. E olha que ainda faltam 4 meses inteiros e quatro dias para 2020 acabar.

Os dados de CVLIs s√£o da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Rede e Instituto de Pesquisa Observatório da Viol√™ncia (OBVIO), além da Coordenadoria de Informa√ß√Ķes Estatísticas e An√°lise Criminal (Coine) da Secretaria Estadual da Seguran√ßa Pública e da Defesa Social (Sesed), e revelam que os homicídios dolosos (quando h√° a inten√ß√£o de matar) e os casos de latrocínio (roubo seguido de morte) foram os que mais aumentaram: + 9,18% e + 7,14%, respectivamente. Para os demais casos, houve redu√ß√£o. S√£o eles: les√£o corporal seguida de morte, – 46,67%; interven√ß√£o policial, – 10,43%; e feminicídios, – 41,18%.

Regi√Ķes

Com rela√ß√£o às regi√Ķes do estado, Oeste e Agreste foram as que registraram maior aumento de mortes, com crescimento de 15,16% e 3,3% respectivamente. J√° nas regi√Ķes Central e Leste houve queda: – 7,41 e – 4,9% respectivamente.

Mais homens, menos mulheres

Os dados da Coine também mostram que os homens continuam no topo da viol√™ncia. No período de 1¬ļ de janeiro e 27 de agosto, mais homens morreram este ano que no ano passado. Em números absolutos, foram 898 pessoas do sexo masculino mortas em 2019 contra 920 em 2020 — um crescimento de 2,45%. J√° as mortes envolvendo mulheres, caíram 12,86%. Em números absolutos, foram 70 mulheres mortas em 2019 contra 61 pessoas do sexo feminino assassinadas este ano.

"O crime organizado atua como uma atividade comercial que precisa se manter gerando lucro"

O coordenador da Coine, Ivenio Hermes disse, em estudo publicado pelo OBVIO, atribui o aumento dos números de CVLIs à adapta√ß√£o da din√Ęmica criminal aos tempos de pandemia, ou seja, o crime organizado atua como uma atividade comercial que precisa se manter gerando lucro, e diante de quaisquer dificuldades, buscam migrar suas a√ß√Ķes para outros territórios e outras atividades ilícitas.

"No primeiro caso, ao migrar de territórios, os criminosos entram em disputa com outros grupos e até com a polícia, aumentando os números de casos de homicídios dolosos e mortes resultantes das interven√ß√Ķes policiais. No segundo caso, ampliam o leque de ilicitudes para além do tr√°fico de drogas ilícitas e de armas para o contrabando de cigarros, roubo de mercadorias, para a negocia√ß√£o com veículos e cargas roubadas, e outras, que s√£o crimes que alimentam e retroalimentam a cadeia constante de assassinatos", destacou Ivenio.

Atlas da Viol√™ncia coloca o RN como 2¬ļ estado do país com maior número de jovens assassinados

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Seguran√ßa Pública divulgaram nesta quinta-feira 27 o Atlas da Viol√™ncia — com dados que mostram a evolu√ß√£o da viol√™ncia entre os anos de 2008 e 2018. No último ano do levantamento, segundo o estudo, o Rio Grande do Norte apresentava uma taxa de 52,5 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes (1.825 homicídios), sendo o terceiro estado mais violentos do país — atr√°s apenas do Cear√°, com taxa de 54,0 e o Par√°, com taxa de 53,2.

Com rela√ß√£o a jovens assassinados, grupo et√°rio de pessoas entre 15 e 29, o Rio Grande do Norte pontuou ainda mais negativamente, ficando na segunda posi√ß√£o, com taxa de 119,3 jovens mortos para cada grupo de 100 mil habitantes. O pior foi Roraima, com taxa de 142,5. A média do país foi de 60,4.

O Rio Grande do Norte também se destacou negativamente na taxa de Mortes Violentas com Causa Indeterminada (MVCI). Neste caso, quando analisados a taxa de MVCI por 100 mil habitantes em 2018, dez estados figuraram na lista com índices acima de 5 por 100 mil habitantes – o que aponta para uma situa√ß√£o preocupante em termos da qualidade dos dados nessas localidades. S√£o eles: Roraima (11,3), Bahia (10,6), S√£o Paulo (9,4), Pernambuco (8,6), Rio de Janeiro (8,4), Espírito Santo (6,6), Rio Grande do Norte (6,4), Minas Gerais (6,0), Cear√° (5,9) e Sergipe (5,0).

Auxílio emergencial tem impacto no aumento da viol√™ncia, diz professor da UFRN

Para o sociólogo Edmilson Lopes, que é professor e pró-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o aumento da viol√™ncia, mesmo em época de distanciamento social, precisa ser analisado de v√°rios aspectos. "S√£o tr√™s de car√°ter geral e tr√™s específicos, pontuais", disse ele. "A expectativa de que teríamos uma diminui√ß√£o significativa da viol√™ncia com a quarentena, ela é irreal, ing√™nua. Todos nós sabemos que o isolamento social n√£o foi praticado de forma uniforme pela sociedade brasileira. Ele foi mais efetivo da classe média para cima. Nas periferias, as pessoas continuaram a desenvolver suas atividades cotidianas, até empurradas pela necessidade da sobreviv√™ncia. Esse é um dado ineg√°vel que o jornalismo apontou: as pessoas continuaram indo para as ruas, nos seus bairros, nas favelas. E é essa a sociabilidade que em parte também alimenta a criminalidade, as mortes violentas, os homicídios. Talvez, quando nós desagregarmos os crimes, como roubos a automóveis, roubos a lojas comerciais, roubos a pessoas, talvez a gente tenha uma diminui√ß√£o nestas modalidades, mas que n√£o representam a viol√™ncia em seu grau mais extremo, que é o da viol√™ncia letal", destacou.

A segunda observa√ß√£o, também de car√°ter geral, ainda de acordo com o professor, "é que no Rio Grande do Norte tem-se a mania de confrontar o que acontece aqui no estado com o que acontece no Brasil. A din√Ęmica no Rio Grande do Norte, ela é mais correta de analisarmos, se relacionarmos com a regi√£o Nordeste. No Nordeste, no final de 2020, teremos um total de homicídios maior que o total de 2019. E isso por causa do impacto do auxílio, esse benefício que é extremamente positivo, fundamental para a cidadania. Como tudo na vida, existe impacto para além daquele que nós esperamos, tem consequ√™ncias além daquelas que comumente apostamos que vai ocorrer. Mais dinheiro circulando nas √°reas periféricas, significa também maior possibilidade de crimes predatórios. Tanto de viol√™ncia doméstica — brigas pelo gasto destes valores — quanto de possibilidades de consumo. Ent√£o, de certo forma, é inevit√°vel que isso ocorra. E isso tem um impacto na viol√™ncia, no aumento do número de homicídios".

"A terceira de car√°ter geral é que temos a manuten√ß√£o do padr√£o da viol√™ncia letal, cujo instrumento fundamental é a arma de fogo. Ent√£o, no final do ano, também vamos ter um aumento do número de crimes por arma de fogo, pela facilidade de acesso a armas de fogo pela nova política que foi se instalando no país", pontuou Edmilson.

Por fim, no car√°ter específico, Edmilson observa que "parece que estamos numa descida suave da criminalidade violenta na Grande Natal. É significativo isso, tendo em vista uma maior atua√ß√£o da presen√ßa policial em municípios que por muitos anos impulsionaram a viol√™ncia na regi√£o. Por outro lado, nos municípios do litoral Sul, observamos um grande crescimento significativo do casos de mortes, que eu n√£o saberia agora dizer o que est√° acontecendo. Mas, n√£o podemos dizer que é um caso isolado. É importante observar isso. E temos a regi√£o Oeste, Mossoró especificamente, que tem ocupado nos últimos 10 anos, pelo menos, o notici√°rio local e nacional como uma das cidades com as maiores taxas de homicídio. Precisamos chamar a aten√ß√£o para Mossoró e para a regi√£o Oeste, onde temos a manuten√ß√£o do mesmo padr√£o de viol√™ncia de anos anteriores", concluiu.

Portal Agora RN

Jota Edilson

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