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Premiê da Índia amarga nas urnas os reflexos do negacionismo

Por Nilton Macedo em 03/05/2021 às 10:13:45
Premiê mais poderoso em cinco décadas, Narendra Modi investiu pesado para conquistar o estado de Bengala Ocidental, mas foi castigado pela gestão da pandemia. Narendra Modi recebe um prato de comida durante visita a um tempo, em 1º de maio de 2021

Divulgação/Governo indiano/Via AFP

A conjunção entre pandemia e calamidade que põe a Índia no epicentro do planeta começou a castigar politicamente o primeiro-ministro Narendra Modi. Seu partido, o nacionalista hindu BJP, sofreu um duro golpe nas urnas em Bengala Ocidental, onde o premiê investiu pesado para tirar o poder do TMC, da ministra Mamata Banerjee, que governa o estado há três mandatos.

Não há como não associar esta derrota aos efeitos catastróficos da pandemia na Índia. Premiê mais poderoso em cinco décadas, Modi enfrenta agora os amargos reflexos do negacionismo: autorizou festivais religiosos com milhares de peregrinos e comandou, sem máscaras, gigantescos comícios eleitorais, enquanto a doença se alastrava.

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A imagem messiânica do primeiro-ministro, que assumiu o poder em 2014 e foi reeleito cinco anos depois, é transmutada pela fúria popular. O governo é acusado de inação e despreparo. E responsabilizado pela maior crise humanitária da Índia desde a independência, em hashtags, como #ModiMustResign e #ModiMadeDisaster, que proliferam nas redes sociais.

Por diversas vezes, nos últimos meses, o premiê vangloriou-se de uma suposta vitória sobre o vírus, como se o país estivesse literalmente imune a ele. “A Índia salvou o mundo, e a Humanidade inteira, de uma grande tragédia ao controlar efetivamente o coronavírus", decretou em 28 de janeiro no Fórum Econômico Mundial.

Em março, contudo, em novas variantes, a doença ressurgiu, com força avassaladora e descontrolada, abarrotando hospitais, promovendo uma corrida frenética por oxigênio e espalhando pelo país crematórios a céu aberto. Em 10 dias consecutivos, o número de novos infectados ultrapassou os 300 mil.

Modi foi tachado de “superpropagador” do vírus pelo vice-presidente da Associação Médica Indiana, Navjot Dahiya: “Ele jogou ao vento todas as normas da Covid-19.” Críticos o acusam de priorizar as eleições em detrimento da pandemia e de afrouxar rapidamente os rígidos bloqueios para não perder votos.

A campanha de vacinação também se revelou desastrosa. O governo enviou mais de 60 milhões de doses a outros países, incluindo o Brasil, a despeito do recrudescimento da doença na Índia, e acabou sendo obrigado a suspender as exportações.

Ainda é prematuro para vaticinar a debacle de Modi, pela derrota eleitoral em Bengala Ocidental, um dos poucos em que o BJP não tem maioria parlamentar, e o desempenho aquém do esperado do partido em outros quatro estados. A oposição está rachada e não tem um adversário claro e à altura para enfrentá-lo nas próximas eleições nacionais, em três anos.

Junte-se a isso a enorme capacidade de Modi em reinventar sua personalidade pública, como resumiu o pesquisador Milan Vaishnav, do Carnegie Endowment for International Peace.

“Ele mudou de hindu nacionalista linha-dura na década de 2000 para a tecnocrata reformista em 2014 e modernizador do bem-estar em 2019. Em 2024, não se surpreenda se Modi exibir mais um rosto para obter mais um mandato”, alertou num artigo no jornal “The Washington Post”. Ainda assim, o baque nas urnas regionais ressoa fortemente na trajetória de Modi.

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Fonte: G1

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Jota Edilson

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